



Andava pelos corredores do colégio no mesmo compasso de sempre. O cabelo negro preso para trás em um longo rabo de cavalo destacava-se contra a cor de sua pele. O cabelo balançava ritmadamente com os passos da menina. Calma, concentrada, sempre com as bochechas pintadas do mais puro rubor, e os olhos atentos, abertos, como se esperassem por algo. Quem a via achava que nunca tropeçava, nunca se machucava. Não caía em buracos sem fim, e muito menos se apaixonava. Coitados. Os olhos verdes escondiam tudo, e quase não cabiam em si. Uma vez ou outra se pintavam de vermelho e lacrimejavam. Nunca na frente dos outros, fraqueza demais, e demonstrá-la nunca foi seu forte. Porém quando, por um infeliz acaso, topou com ele, ela pareceu desmoronar. O seu ombro doía, mas era pouco perto do quanto o nó em sua garganta a incomodava. O coração palpitava rápido, podia o escutar em seus ouvidos, achava que o próprio menino do cabelo cor de mel o escutava.
— Desculpe-me, — ele disse, e a voz de veludo acariciou os ouvidos dela — não vi você aí.
— Tudo bem. — disse ela enquanto pensava que ele nunca a via de qualquer jeito.
— Tu estás bem? Tem certeza? Foi uma batida bem forte! Espero que ãhn… não tenha machucado.
— Não se preocupe. — preferiria ter dito que ele nunca se preocupou mesmo, que a batida não era nada comparada a tudo que ele havia causado.
— Então, como estás? — ele apoiou-se na parede, perto dos armários, com aquele velho sorriso de galã.
— Bem. — disse ela ríspida, fria.
— Hm, — disse ele arqueando as sobrancelhas e a olhando de cima a baixo — tu pareces mesmo.
— Pareço? — disse ela sentindo-se orgulhosa.
— Hunhm, parece mesmo. — disse ele soando desinteressado.
Ele sentia a falta dela, mas isso era algo que nunca poderia admitir. Ela ficava melhor sem ele de qualquer jeito. Ele sempre se culpou, e faria de tudo para protegê-la, mesmo que isso o mantivesse longe da única que ele amou. E agora ele percebia isso, o que antes no passado fora tão difícil de admitir. Aliás por que aquelas três palavras pareciam tão impronunciáveis?
— Queria estar tão bem quanto aparento. — suspirou.
Queria dizer o quanto sentia a falta dele. Não podia. Não iria. Era muito orgulho para se pisar em.
— É? E o que aconteceu? — ele pareceu interessado enquanto curvava-se para vê-la mais de perto.
— Tu. — ela foi direta. Não via ponto em fingir mais, não era necessário.
— Eu? — ele parecia realmente surpreso. Os olhos abriram-se, estáticos, vivos.
— É, tu e todas as coisas que me causastes. Tudo que dissestes naqueles momentos de raiva e até mesmo nos de felicidade. — calou-se rapidamente, não queria ir em frente.
— Espero que tu melhores então… — deu as costas a ela, e tudo foi como um flashback em sua memória.
— Não tem melhora! — gritou o mais alto que pôde, chamando a atenção dele.
Silêncio.
— Não tem melhora porque tu estragastes qualquer tipo de cura que fosse. Tu eras o meu melhor remédio, entende? Era esse teu sorriso, e o teu cheiro almíscarado. Mas um belo dia tu acordastes e decidistes que eu não era suficiente. — ela esparramava as palavras em cima dele.
— Ei… — ele tentou falar, mas foi interrompido novamente pelo turbilhão de pensamentos e palavras que ela guardava dentro de si.
— Quando eu te perguntei como aquele vestido ficava em mim, tu dissestes que eu estava cheinha demais pra usar ele. E eu não estava. Eu estava perfeitamente saudável. Então eu fiquei uma semana sem comer. Tu notastes o quanto eu emagreci, ou como eu não comia nada? Não. Mas eu sempre te idolatrei do mesmo jeito. Eu sempre relevei tudo. Tudo. Tu destes valor? Não. Tu nunca notastes minhas cicatrizes, e mágoa por trás de todo tudo bem que eu falava. Vê agora como foi idiota?
— Eu.. eu não sabia. Era tudo brincadeira, eu achei que tu não te importavas…
— É muito fácil falar que foi uma brincadeira, certo? É muito fácil esconder tudo atrás de uma risadinha qualquer.
— Eu realmente não sabia… Me desculpa. — ele dizia sussurrado, com medo.
— E sabe o pior? Eu sinto a tua falta. Pronto, eu disse. E agora não importa mais mesmo. Nunca mais diga que eu sou orgulhosa, que eu não sei me desculpar, quando quem mais deve desculpas és tu. Estou cansada de dizer desculpa e andar por aí magoada, me perguntando se um dia tu me amastes. O que eu sei que fez.
— Receio que não. — ele disse confiante.
— O quê? — ela por um momento parou seu ato de quase arrancar os cabelos fora.
— Eu. Não. Te. Amei. Esse é o único motivo de eu ter feito todas estas coisas certo? E agora… tu não precisas mais te perguntar. Eu respondi. Boa sorte.
— Mas… — ela falou baixo.
— Mas? Mas nada! Olha bem pra mim, a partir de agora tu és a culpada por todas as coisas que te acontecem, por todas as decisões erradas que tomarás. Eu… não tenho mais nada a ver contigo. Entendeu?
Ela balançou a cabeça e ele foi embora. Ficou paralisada por alguns segundos tentando juntar todas as palavras em sua mente. As lágrimas e o torpor percorreram seu corpo. A blusa rosa tornou-se escura, e as bochechas de um negro ávido. As mãos encontraram os olhos para tapar a vergonha. Por que com ela? Camila Reis.
theme por nostalgia-surreal; base por amar-gura e memorias agridoces; alguns detalhes originais da affectingyou, m-4-r-y, elasocurtejackdaniels e meiopasso; não seja um filho da puta, crie vergonha nessa sua cara, e faça o favor de não copiar nada aqui. Obrigado rsrs